terça-feira, junho 05, 2018

In-vernas

Quero mergular na água e viver com os peixes.
Não quero sair do útero da terra.

Quero menos civilização.
Mais cheiro de terra e capim.

Quero a pureza dos urros dos animais.
Como se a palavra não tivesse sido inventada.

Porque a palavra, o concreto, o árido me matam aos poucos.

E eu sou viva demais pra andar por entre humanos.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Matrimônio

Detesto as palavras.
Elas são curtas, pequenas, sem sentido diante de tudo o que elas precisam dizer e não conseguem.

Entorto as palavras.
Misturo as palavras.
Costuro cada uma na tentativa infinita de fazer com que sejam mais.

Gosto das palavras, até.
Mas daquelas que se desprendem do dicionário.
Que se desligam da comunicação imediata.

Gosto das palavras que fazem curvas.

Gosto quando elas topam formar corpo maleável.

Palavras que deixam de ser palavras pra virar composição.
Palavras que aceitam o fato de não terem sentido e se desfazem daquilo que dizem sobre elas.

Poesia do desenho com letras.
Dessas eu gosto, por essas eu me apaixono.
Com essas eu quero viver a vida inteira.

terça-feira, dezembro 19, 2017

Pra longe de você

Por vezes chega a hora de partir.
Chega a hora de seguir outro caminho e deixar os amores e rumores pra trás.
Ter outro rumo na prosa e rumar na poesia das almas leves e sem medo.

Porque nessa hora a gente também dá adeus ao que é pequeno, ao que se esgota na capa macia e tem recheio de fel.

É ir pra longe, porque a vida é sempre maior.

VIVER A VIDA DOS FORTES.

Em tempo de separar o joio do trigo e ir além da fronteira do pouco.

Partir enqunro o peito ainda é repleto de amor.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Cartas de vida

As cartas me dizem coisas não ditas pelas bocas humanas que se calam.

As cartas me escrevem em sussurros que se escondem de quem quer distorcer sua voz.

As cartas me ensinam, me orientam, me oferecem abrigo.

As cartas que não são escritas, mas se fazem na leitura do peito apertado e do coração agitado.
De emoção e razão, as cartas me falam com a minha própria voz.

As cartas me trazem à tona, à margem, ao lado, e me dão perspectiva no redemoinho.

As cartas me acompanham em companhia silenciosa.
Elas seguem comigo, mesmo que eu não siga com elas.
Elas são fiéis. Mesmo que nem sempre eu o seja.
Elas me lembram de mim, resgatam a mim e me oferecem a mim novamente e sempre.

Morrer-se

Num dia de medo em que a morte de novo espreita, me vejo em companhia de fantasmas.
Todos os que tiveram pêlo e tiveram zelo, comigo permanecem em seus afetos, sons e perfumes.

Percebo no movimento das idas que se repetem, uma construção do novo nos escombros.
Um fazer-se de luto e nojo, mais forte que a ingenuidade da pureza perdida.

É ter uma veste de animal e com as vidas que se vão tornar-se um pouco fera.

Apavorar-se com a potência da veste e da máscara.
Inusitada ao hábito do humano.

Admirada. Admirável.


quarta-feira, novembro 22, 2017

Buscar a mim.
Quando morro a cada dia.

Resgatar a mim.
Quando me coloco em perigo.

Assustar a mim.
Quando assumo o risco.


Lonely mornings

Lonely mornings

Nas manhãs solitárias me predisponho a pensar no que o tempo não permite.
No que o tempo quer esquecer.
No que o tempo não quer sentir em sua apressada existência.

Nas manhãs solitárias de sol, me deixo invadir pela nostalgia dos raios luminosos,
lembrando de momentos brandos em que o calor era afago, sem arder como chama.
Sem me queimar como carne exposta.

Nas manhãs com nuvens brancas e céu azul,
sozinha,
tento lembrar que não devo esquecer.

Nas manhãs me faço companhia.
Me escuto, pois mais ninguém o pode fazer.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Formatura Psicologia UFRGS - 2014/2

Retomando este espaço de escrita, compartilho que hoje fui homenageada.

Mas, mais do que homenageada, eu me senti contemplada, acompanhada.

Foi na formatura dos estudantes da psicologia da UFRGS (onde trabalho atualmente).
Fui servidora homenageada.
E me lembrei de quando escolhi uma representante do corpo técnico da universidade para homenagear na minha graduação.

Lembrei que minhas colegas e eu pensamos que a pessoa agraciada com a homenagem deveria ser alguém que efetivamente fez diferença na nossa formação. Teria que ser uma pessoa que nos deu apoio para realizar as nossas atividades acadêmicas, que auxiliou com a estrutura para que o saber compartilhado pelos docentes pudesse efetivamente fazer parte de nossa prática.
Escolhemos a funcionária responsável pelo guarda-roupa do Departamento de Arte Dramática.
Pensamos na ajuda para escolher os figurinos, no cuidado com a manutenção das roupas e acessórios, na delicadeza com que nos tratava... no carinho com pessoas e objetos.

E penso, então, no que faço: cumprir minhas atividades de organizar a burocracia da universidade e amenizar o impacto da máquina ao humano.
Pra mim é simplesmente o que me cabe como servidora. Aquela que está ali para servir, não de modo servil, mas de maneira dedicada e acolhedora. Como a senhora do guarda-roupa, que hoje não recordo o nome - mas lembro do rosto, do olhar e das conversas.

Trabalho com atendimento ao público, porque gosto de gente.
Me formei em artes cênicas porque acreditava na possibilidade da arte como comunicação privilegiada.
Comunicação entre pessoas. Olho no olho de gente pra gente. Gente que se dispõe ao outro e não se fixa em uma única possibilidade de existência.

Não segui pelo teatro, mas segui com as gentes...com a vida que não se esgota nos planos traçados. Segui me oferecendo a oportunidade:
- de viver o que me é oferecido e ser grata.
E a psicologia me abraça na humanidade a que se propõe.

Me senti muito parte da formatura de hoje, talvez mais do que na formatura da minha própria graduação.
Pois falou-se em liberdade, em respeito, em autonomia.
Valorizou-se a utopia, o sonho de um mundo melhor.

Se desejou felicidade ao outro e não a si próprio.

E é isso.
Felicidade.
Felicidade.
Felicidade.
Felicidade.

Como disse o Joseph Campbell: “Descobri que basta dar um passo na direção dos deuses que eles darão dez passos em sua direção.”

domingo, janeiro 05, 2014

Junho/2010

A cadela moribunda anda pelo jardim.
Arrasta o ventre em meio à grama, formigueiros e jasmins.
....

Estou com o Lehmann. (escritos de algum lugar do passado)

Na metade de agosto foi uma época especial em Porto Alegre.
Nesses dias, houveram três encontros com um dos maiores teóricos do teatro na atualidade: Hans Thies-Lehmann.

De fato ele não disse nada de muito novo, para quem já leu seus livros, mas vê-lo falar e se posicionar foi uma experiência extremamente gratificante!

Homem simples, de estatura mediana e sorriso sempre agradável, o Prof. Lehmann é de um encanto inusitado para acadêmicos. Falando sobre teorias complexas de maneira simples e eficiente, ele nos faz lembrar que nem toda a teoria é sisuda e que às vezes é a gente que complica demais as coisas.

Em sua palestra inicial, Lehmann ofereceu um resumo atrativo para tudo o que desenvolve em seus livros (quem leu, quer ler de novo; e quem não leu percebe que, definitivamente, precisa começar a ler!). Apontamentos sobre o estatuto autônomo da arte teatral em relação ao drama, da existência de sujeitos conectados em redes e sem individualidades afirmadas, das distinções entre arte e entretenimento, ou mesmo da redescoberta do teatro como espaço de coexistência para todas as formas de arte, foram enriquecedores para a plateia porto-alegrense.

Na roda de debates, que ocorreu durante a noite da quinta-feira, foi gritante a dificuldade de alguns profisionais da área em dialogar com o Prof. Lehmann. Enquanto poucos se preocuparam em discutir arte, outros tantos pensavam em questões de mercado que, talvez, interessassem muito mais aos sociólogos - como foi muito bem colocado pelo Prof. duarante a palestra da manhã - quando disse que aos teóricos da arte não interessariam tanto as correntes mais numerosas do fazer artítico, mas sim as inovadoras proposições de linguagem dentro dos trabalhos apresentados.

Na sexta-feira, sua palestra se realizou após o relato de sua esposa, a crítica e teórica teatral grega Eleni Varopoulos - que apresentou a descrição de várias encenações contemporâneas de tragédias e comédias clássicas.
Lehmann, enfatizou a questão política do teatro contemporâneo em manifestação muito distinta da que se verificava nas peças, geralmente panfletárias, do século passado. Ele discorreu sobre a postura política da aparente não politização no pós-dramático, ou o que se poderia dizer uma politização mais sutil e deslocada em termos de posições binárias. É uma visão de política que é exercida como parte de uma existência, sem ser pensada como propaganda ideológica, mas apenas como implicação das discussões éticas, e por que não estéticas, que permeiam nossa sociedade.

Mas o ponto que perpassou todas as conversas com o Prof. Lehmann, e que deve ser lembrada sempre, é a ênfase na criação e no trabalho do artista como experiências únicas, reveladas ao público sem a preocupação com a razão - com o fazer sentido ou ser compreensível. A experimentação da linguagem, que poderia definir em certa medida o artístico contemporâneo, jamais deveria se colocar a mercê do desejo do público ou das necessidades de mercado. E, em certa medida, senti até mesmo uma espécie de solicitação aos que ainda acreditam nessa condição de artista: permaneçam fiéis fundamentalmente a si mesmos, pois sua arte é intransferível a si.

Depois disso me parece desnecessário dizr qualquer outra coisa.

Aquífera.

Pois que hoje o dia é de brisa,
vou me fazer plástica, elástica.
Líquida.

Me fazer, refazer, desfazer.
De fluxo e correnteza me deixar ir.

Me resmungar
em lamúrias tolas.
Me acalmar
das torrentes bobas.

Catar os cacos e secar o sangue.
Buscar a ardência do ácido que corre nas veias.
Me desaguar.

Descalçar e molhar a alma.
Apertar e amamentar a lama.
Jorrar.
Brotar.

Do sal de mim
salinar.
E me deixar marina.

Aguar o seco de soco.
Desrepresar.